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[Guia de Sobrevivência – Amplificadores Valvulados] Voicing

Guia de Sobrevivência - Voicing dos amplificadores valvuladosIntrodução ao voicing

Uma das coisas mais interessantes quando falamos de amplificadores valvulados é o voicing. É como se os amplificadores fossem divididos em dois grandes tipos de vozes, a americana e a britânica. Antes de mais nada, leia aqui o artigo que ensina a tirar o melhor proveito dos amplificadores valvulados. Muito recomendado para quem quer se aprofundar no tema.

Voltando ao tema, cabe dizer que a amplificação de áudio é por imitação e não por criação. Melhor dizendo, a circuito ativo, reproduz a onda de entrada em sua saída, através de uma espécie de clonagem. Ao contrário do que muita gente pensa, você não “engorda” o sinal original, você o reproduz ao final de cada etapa, só que com aumento de sua amplitude (tensão) na etapa pré-amplificadora e com mais corrente na etapa de potência. Simples não é!

Diante disso, uma das consequências é que o timbre depende demais dos componentes ativos de um amplificador. Por isso valvulados e transistorizados são tão distintos (quanto ao timbre), pois seus componentes ativos reproduzem a onda de forma diferente.

De uma 12AX7 para um 12AU7 as diferenças são marcantes, até mesmo entre uma válvula do mesmo modelo mas de fabricantes diferentes, encontramos diferenças timbrísticas. Podemos citar o exemplo entre 2 (dois) grandes fabricantes russos, SOVTEK e JJ. Ambas fábricas produzem válvulas de qualidade, mas as JJ tem mais agudos, enquanto as SOVTEK possuem mais grave.

Agora imagina então as diferenças entre uma 6L6 (tétrodo) e uma EL34 (pêntodo)?! O reflexo de tudo isto é que marcas se imortalizaram e definiram seus voicings com base na escolha das válvulas usadas na construção do amplificador, especialmente na etapa de potência.

 

Um pouco de história sobre o voicing

Justiça seja feita… Leo Fender é o grande responsável pelo timbre da guitarra tal qual conhecemos hoje. Foi ele que definiu sua forma, tanto através do projeto das guitarras sólidas como seus sistemas de amplificação.

O tone stack Fender serviu e serve de parâmetro para a construção de amplificadores até hoje. Muitos amplificadores famosos surgiram de adaptações e atualizações do circuito projetado por ele.

O mais famoso caso foi o JTM45 Marshall. Jim Marshall tinha uma loja de instrumentos e decidiu montar (e vender é claro) réplicas do então aclamado Fender Bassman. Jim era baterista e grande empreendedor, mas não entendia nada de eletrônica, na época, por sua conta ficava o acabamento dos gabinetes, a colagem do courvin, do tecido ortofônico… etc.

Ele tomou esta decisão porque a importação dos Fenders estava muito dispendiosa e ele enxergou a oportunidade de se fabricar algo na Grã-Bretanha e aumentar os lucros. No começo ele usava válvulas de saída 6550, assim como os Bassman chegavam na Ilha, mas devido também aos custos, em pouco tempo, seu técnico adaptou o circuito para as válvulas EL34 que eram facilmente encontradas na Inglaterra além de serem mais baratas.

Desta adaptação, eu arrisco a dizer que nasceu oficialmente o voicing british. Foi com a adaptação das válvulas de power, que o circuito Marshall ganhou fama por seu médio poderoso em altos volumes. O famoso “roar” dos Marshall’s acabou conquistando uma legião de guitarristas ao redor do mundo.

Não estamos dizendo que antes do Marshall não existia outros fabricantes ingleses, mas é que até então o padrão internacional era Fender. Basta lembrar também que a Europa foi assolada na primeira metade do século XX por duas grandes guerras. Já nos USA, depois do grande “crack” na bolsa de Nova York, gozava de uma estabilidade econômica e já na década de 40, sua indústria era padrão de mercado no mundo inteiro.

Bom, história mundial a parte, o que vale a pena distinguir de tudo isso é que o “MUNDO DO TIMBRE” ficou dividido em 2 (dois) grandes eixos: o british e o american.

E estes dois voicings principais são também as referências que temos para escolher nossos amplificadores ainda hoje. Geralmente os fabricantes atuais baseiam seus circuitos de potência nestes dois voicing’s e escolhem válvulas estilo inglesas ou estilo americanas (falo estilo, porque hoje em dia a fabricação de válvulas está concentrada na Rússia e na China).

 

Assista o vídeo “Em busca do timbre perfeito – Parte 2″ em complemento a este artigo:

Válvulas de cada estilo

Bom o voicing american é predominantemente feito com válvulas 6V6, 6L6 e 6550. O voicing british vem predominantemente das válvulas EL (34 e 84) e KT (66, 77, 88).

O famoso circuito britânico dos Vox AC 15 e AC30, por exemplo, usa EL84 na saída que por muitos é chamada de mini EL34. Já o Fender Tweed Deluxe de 15W possuía um par de 6V6 na saída, que também é chamada de mini 6L6.

 

O voicing nos dias de hoje

Apesar deste grande divisão, o timbres foram evoluindo assim como os estilos musicais, necessitando cada vez mais de ganho. Hoje os amplificadores também podem ser divididos em low gain, middle gain, high gain e ultra gain.

Diante deste novo paradigma e da evolução natural dos circuitos, surgiram amplificadores como Soldano SLO100, Mesa Boogie Dual Rectifier… etc., que são versões high gain do voicing american. Surgiu então o que muitos chamam de voicing californian, que pode ser classificado como o timbre americano dos amplificadores high gain.

Na Europa, além da própria Marshall (que na década de 80 foi lançando modelos high gain), tiveram outros fabricantes, principalmente na Alemanha (Hüghes & Kettner, Engl… etc.) que se dedicaram a produzir amplificadores de alto ganho a partir de uma evolução dos clássicos modelos british. Para muitos, este timbre moderno é chamado de voicing german.

Atualmente, a compreensão destes voicings não deixa de ser importante, pois é muito útil para te ajudar a escolher um amplificador. Se você sabe que o voicing que gosta mais é british (por exemplo), você economiza um tempão em testes de amplificadores que naturalmente não teriam o som que você procura. Até porque a geografia não ajuda muito hoje em dia. Tem fabricante que possui modelos tanto british quanto american, e sua indústria é localizada no Brasil, China, USA, Inglaterra… etc.

Então… conhecer as válvulas de saída e características dos circuitos são muito importantes para se identificar o voicing do amplificador. Há ainda modelos que tem os 2 voicings funcionando ao mesmo tempo, que no girar de um botão, você passa de um para outro. Outros modelos tem a possibilidade de se trocar uma válvula de saída por outra.

Concluindo, o voicing é mais uma importante característica para a escolha consciente de um amplificador. Certamente, alguém vai me perguntar qual o meu voicing favorito, e eu responderei sempre: TODOS! (Risos) É que para cada estilo que toco, um voicing fica melhor. Infelizmente não dá pra ter todos os amplificadores que a gente deseja, aí a saída é ter pelo menos 2, no meu caso foi um british middle gain e um high gain american (californian). Com este kit, dá pra tocar quase tudo que eu gosto.

 

Um abraço e até a próxima!

 

Elvis Almeida

Elvis Almeida