[Como funciona] Pedal de overdrive ou distorção – Parte 1

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Parte 2
Parte 3

Como funciona um pedal de distorção ou overdriveI – Um pouco de eletrônica

Hoje nos aprofundaremos um pouquinho em conceitos de eletrônica para podermos compreender melhor o funcionamento destas caixinhas mágicas que tanta alegria nos trazem.

Distorção, segundos os dicionários é ao “ato de distorcer” e “distorcer” é definido como “alterar a forma ou característica”, ou seja, deformar.

Quando estudamos eletrônica no áudio, especialmente no caso de amplificadores e pedais de guitarra, certas distorções são desejadas, pois foram responsáveis por ajudar a construir a própria “voz” do instrumento.

E para entender melhor o que seria um pedal de overdrive, primeiramente precisamos conceituar os tipos de distorção.

1.1 Tipos de Distorção

Não há muito consenso sobre os tipos de distorção de áudio. Sendo que muitos autores incluem os apitos, microfonias, “hiss” e “humm” como espécies de distorção. Não vou entrar nesta polêmica, se são ou não tipos de distorção, só não irei abordá-los aqui, porque acho que didaticamente ficariam melhor em um artigo separado.

Essencialmente, há 3 tipos de distorção a saber:

a) Distorção de frequência;

b) Distorção de fase;

c) Distorção de amplitude.

Distorção de frequência: ocorre quando algumas frequências do sinal de áudio são mais amplificadas que outras, ou o contrário, quando são menos amplificadas. Isto altera o áudio original quanto à sua frequência, mudando o timbre do instrumento. Não vamos confundir distorção de frequência com equalização do circuito. A equalização (fixa ou ajustável) é justamente um circuito criado para compensar as perdas ou ganhos da distorção de frequência. Já a deformação é algo que nasce decorrente da atuação do próprio componente ativo do circuito, seja válvula ou transistor. Os datasheets de componente às vezes nos informam a curva de frequência do componente ativo, auxiliando o projetista na escolha deste ou daquele transistor ou válvula.

Vou dar um exemplo de senso comum. Quem tem amplificador valvulado já deve estar cansado de ouvir que esta ou aquela válvula tem mais “brilho” (agudos, médio-agudos), ou esta tem mais grave. Então, isto decorre do fato de que cada componente ativo deforma a frequência de uma maneira diferente.

Distorção de fase: ocorre quando nem todas as frequências da onda injetadas na entrada chegam amplificadas na saída ao mesmo tempo. Então a distorção de fase também pode ser chamada de retardamento de tempo.

Distorção de amplitude: geralmente ocorre quando o componente ativo está saturado. A saturação acontece quando se excede os limites da amplificação da válvula por exemplo, gerando o achamento da onda. Para ficar claro como ela funciona, segue abaixo uma imagem ilustrando a distorção de amplitude:

Distorção de Amplitude - Clipping

Imagem retirada do site: http://www.dmu.uem.br/aulas/tecnologia/TutorialAcustica_Iazzetta/audio/a_digital/a_digital.html

Opa! Agora eu interessei!

Pois é, a saturação, traduzindo-se livremente para o inglês significa overdrive, ou seja, aquela distorção ocasionada por causa de não se obedecer os limites do componente de amplificação.

 

II – Um pouco de história do overdrive

2.1 Quando o overdrive surgiu como efeito?

No início dos amplificadores de guitarra (não existiam transistores), os fabricantes buscavam amplificar com o máximo de amplitude (volume final) e com o mínimo de peças. Pense que a produção era praticamente artesanal e que os custos inviabilizavam muitos projetos. Assim, a saturação (tanto de pré como de power) a partir de certo nível de ganho era inevitável.

No começo parecia um problema que a indústria teria que corrigir, mas ao contrário, o overdrive foi caindo no gosto de guitarristas e público de Blues e Rock. E o que se percebeu nas décadas seguintes, foi um aumento expressivo do uso de distorção nas gravações. A quantidade de distorção produzida pelos amplificadores também foi aumentando, tanto que hoje (quanto à quantidade de distorção) dividem-se os amplificadores em no mínimo 4 (quatro) tipos, a saber, low-gain, mid-gain, high-gain e ultra-gain.

Foi neste paradigma que os amplificadores Marshall, mais especificamente o modelo Plexi, se tornou o “xodó” entre os guitarristas de Rock do mundo, pois além de um timbre muito característico decorrente das válvulas europeias, era um amplificador “fácil de saturar”. Rapidamente, ele se tornou o amplificador favorito da maioria dos “roqueiros”, sendo uma referência de timbre para o estilo.Pure Plexi EFX - O clássico timbre britânico aos seus pés! Compre já!

O sucesso é tão grande, que muitos fabricantes se dedicam a criar modelos em suas linhas que reproduzem esta sonoridade (exemplo: Pedal EFX Pure Plexi).

Mas a questão não parava por aí, para aqueles que queriam mais saturação, surgiram os pedais de preamp, que injetavam mais ganho na entrada do pré do amplificador, deixando a sobrecarga ainda mais forte e gerando mais distorção.

Desses primeiros protótipos para os atuais pedais de overdrive foi um pulo.

Amplificador de 2 canais (clean e drive) é coisa relativamente moderna, se popularizando mais na década de 80. Então, era muito popular o uso de pedais de overdrive não só para empurrar o amplificador com mais ganho, mas também para ter controle entre sons mais ou menos distorcidos no pé.

Ainda hoje, o uso de pedais de overdrive para empurrar os amplificadores não é coisa exclusiva de guitarristas old school, até mesmo os guitarristas que possuem amps high-gain, gostam de utilizar um pedal de drive para dar um boost de ganho e aumentar o punch.

2.2 Existe diferença entre overdrive e distortion?

Tecnicamente não. A nomenclatura é coisa muito mais de mercado do que propriamente diferenças técnicas. Vou dar um exemplo: o MXR Distortion+ é praticamente o mesmo circuito do DOD 250 Overdrive/Preamp. Um fabricante escolheu chamar de overdrive e outro de distortion.

Ambos são pedais que provocam a distorção de amplitude. O que ficou convencionado pela indústria é que os Distortions geralmente são aqueles com mais ganho e os overdrives com menos.

Se você está pensando em comprar um pedal, o importante é pautar-se não pela nomenclatura, mas principalmente pela referência timbrística, ou seja, se o drive é na linha britânica ou americana, se é vintage ou moderna… etc. Este tipo de informação é muito relevante na hora da escolha.

Mas e o funcionamento propriamente dito? E como se controla a quantidade de overdrive?

Calma, isto será abordado nos próximos artigos. (Leia a segunda parte aqui!)

Até lá!

Elvis Almeida Elvis Almeida